Arquitetura e o "novo normal"

12.10.2020
12/10/2020
Eduardo Paiva Haguio
 
 
O ano de 2020 é um daqueles que permanecem por muito tempo como uma marca, uma referência para muito além dos 366 dias que ele originalmente representaria.
 
Com a maior crise sanitária do nosso tempo, este ano (que em diversos momentos lembrou uma longa noite escura, interminável) tem também o potencial de trazer em seu rastro grandes e profundas transformações nos nossos meios de nos relacionarmos, de vivermos em comunidade. Consequentemente, diante dessas mudanças, a arquitetura também deve se transformar significativamente.
 
Em uma reportagem publicada hoje [12/10/2020] na Folha de Londrina, o professor de Arquitetura e Urbanismo da UEL, Jorge Marão — que participou da formação de tantos arquitetos na cidade, dentre os quais me incluo — chama a atenção para as mudanças no comportamento das pessoas que devem se apresentar pelos próximos anos: 1) uma maior preocupação com a ventilação natural, que por sua vez deve promover uma mudança na paisagem da cidade; 2) a incorporação de hábitos já presentes em outras culturas, como deixar os calçados na entrada das residências, o que deve promover adaptações nos nossos projetos arquitetônicos; e 3) maior atenção à circulação do ar e ao acesso à luz natural no ambiente urbano, buscando ambientes mais saudáveis.
 
A história da arquitetura e do urbanismo é repleta de casos que reforçam esse ponto de vista. Talvez os casos mais notáveis, mais marcantes, sejam aqueles decorrentes dos movimentos sanitaristas que, a partir do século XIX na Europa, moldaram as condições em que a dita Arquitetura Moderna viria a promover a sua revolução cultural, técnica, programática e estética. E por todas as características presentes nesta pandemia e em nossa sociedade atual, é possível que a nossa geração venha a vivenciar essas novas transformações em tempo recorde — afinal, a pressão do mercado em um ambiente favorável à inovação parece já dar os seus primeiros sinais, como se constata na reportagem citada.
 
Em adição, é preciso que a nossa geração entenda também a gravidade do momento do ponto de vista ambiental. Pensar o espaço em seu todo é igualmente tarefa da arquitetura, e não é razoável em nosso mundo conectado pensar em "ilhas" de prosperidade enquanto regiões inteiras são lançadas à degradação extrema e insustentável. Entendemos que os conhecimentos técnicos e científicos disponíveis atualmente já nos dão bons indícios de para onde caminhar, aliando o melhor desempenho em termos de conforto ambiental à maior eficiência no emprego de materiais e recursos, especialmente no longo prazo. Conceitos como consciência ambiental, arquitetura bioclimática, tecnologias de baixo impacto, cuidados com a qualidade ambiental, devem estar cada vez mais presentes. Esta é uma discussão muito rica e estimulante, e este parece ser o momento ideal para nos aprofundarmos nestas questões.
 
Agora, uma observação se faz importante aqui: nenhuma transformação será possível enquanto, culturalmente, a preferência da sociedade estiver em se fixar aos aspectos meramente formais, "simbólicos", por assim dizer, de outras realidades que não são exatamente as nossas. Refiro-me aqui à adoção de formas arquitetônicas empregadas em outras latitudes, outras regiões mais ricas do que a nossa, simplesmente por representarem — ou, antes, remeterem a — essas regiões, e por extensão a seu luxo e riqueza, sem considerar os nossos aspectos e as nossas características locais. Esta talvez seja a forma mais nociva de se fazer arquitetura, já que ao mesmo tempo em que despende recursos preciosos para promover soluções paliativas, visando a manutenção de um status estético, promove ainda um abismo cultural entre o que seria razoável (racionalmente falando) e o que seria "ostentação pela ostentação", numa espécie de "monopólio do bom gosto" acessível apenas mediante altos custos financeiros e sociais. Este é o caso, por exemplo, do uso indiscriminado de prédios verticais todos em vidro, copiados das latitudes europeias e norte-americanas, e que para serem habitáveis aqui no Brasil precisam de toneladas de aparelhos de ar-condicionado funcionando praticamente em tempo integral, além de outros recursos caros e dispendiosos. Nada mais irracional; a mesma velha "síndrome de vira-lata" materializada em forma de prédios e cidades. E o raciocínio desse tipo de solução se multiplica o tempo todo, em maior e menor escala, como se fosse algo óbvio e natural.
 
No final da reportagem citada, o professor Marão chama a atenção também para um aspecto negativo que deve se acentuar no pós-quarentena: o individualismo e o isolamento. Essa espécie de "sombra" de nosso comportamento, quando em excesso, corrói nosso senso de comunidade, de pertencimento e integração, e origina muito mais problemas do que aqueles que supostamente resolve. Nosso desafio talvez seja encontrar justamente este equilíbrio tão tênue entre aquilo que somos capazes como indivíduos, e aquilo que podemos alcançar enquanto coletivo. Desafio para cada um de nós, como pessoa, e para a arquitetura, como produto da cultura humana que é.