Arquitetura e luz natural

03.11.2020
03/11/2020
Eduardo Paiva Haguio
 
Tratar, nos dias de hoje, dos benefícios que a luz natural promovem sobre nossa saúde parece ser um tanto repetitivo. Há abundância de estudos que mostram que, com moderação, a luz solar promove o bem-estar para nosso corpo, nossas mentes e nossos ambientes: a eliminação de microorganismos nocivos pela ação da luz, a produção de vitamina D em nosso organismo, e a regulação de nosso ritmo circadiano, para citar alguns.
 
 
Na arquitetura, a luz natural é, historicamente, de vital importância. Ela já foi empregada como parte da definição para a própria arquitetura, pelo mestre modernista Le Corbusier ("A arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz"1); já foi delimitada de forma magistral, didática, quase sobrenatural no Pantheon romano da Antiguidade; e a revolução promovida pela arquitetura gótica a partir do século XI na Europa se deve especialmente pelos arranjos estruturais que permitiam os imensos vitrais, gerando aquela luminosidade tão rica em cores e brilhos — espécie de evocação divina — das catedrais monumentais.
 
Pantheon - Roma
 
Pantheon - Roma
 
 
Vitrais da Catedral de Milão
 
O controle da luz natural é necessário na arquitetura da mesma forma que sobre nossos corpos; o mesmo sol que aquece nos dias frios é aquele que arde na pele nos dias abafados de verão. Por isso, o controle das aberturas (nome "técnico" genérico para janelas e afins) é de grande importância.
Moldar, explorar, "lapidar" a luz natural é, possivelmente, um dos desafios mais fascinantes da arquitetura. Através da determinação das aberturas, seu dimensionamento, posicionamento, constituição etc., a arquiteta ou o arquiteto dispõe de uma infinidade de possibilidades quanto a resultados técnicos e estéticos. Voltando-as para o céu claro, obtém-se uma luminosidade intensa, que preenche os ambientes; ou, se for o caso, com o uso de elementos sombreadores especialmente projetados para este fim, consegue-se controlar a incidência solar direta — aquela que superaquece o ambiente e envelhece os móveis —, deixando livre apenas a parcela de luz que interessa para o maior conforto. Através do arranjo e do dimensionamento das aberturas, é possível criar ambientes claros e vibrantes, ou, por outro lado, intimistas e misteriosos. Para tanto, dentre as diversas ferramentas, a pessoa que projeta lança mão de cartas solares, mapas do entorno e uma série de técnicas e recursos para simular e avaliar os resultados em cada situação — ressaltando aqui que cada caso é, literalmente, um caso diferente, devido às inúmeras especificidades de cada localização e cada entorno. Nenhum caso será exatamente idêntico ao outro.
 
Diante de tantas possibilidades, é importante ter em mente sempre, e com a maior clareza possível, quais são os objetivos que pretendemos alcançar em nossos ambientes. Para além das exigências legais de tamanhos mínimos de janelas e aberturas (lembrando que a maior parte dessas exigências têm sua origem no combate a pestes e pandemias, como aquelas originadas nas obscuras alcovas de tempos idos), a qualidade da luz natural deve estar adequada às necessidades — físicas, estéticas e de conforto — dos usuários daquele espaço. Tempos de pandemia, como estes que estamos vivendo, têm o poder de renovar a atenção para o potencial higienizador e de promoção de saúde disponível na luz do Sol. Além do combate direto aos microorganismos nocivos, é interessante notar como a luz natural também influencia nossa condição psicológica, nossos humores, nossa saúde mental. No momento em que muitos de nós experienciamos — repentinamente e por períodos prolongados — o confinamento em casa, o home-office, etc., tomar consciência destes fatores pode se tornar um alento em meio a tantas mudanças, inseguranças e incertezas. Observar o Sol, sua luz, seu ciclo constante, talvez tenha, neste momento, benefícios maiores do que aqueles de meramente — mas já significativamente — nos lembrar de que tudo isso vai passar.
 
 
1 Le Corbusier, Por uma arquitetura. Trad. Ubirajara Rebouças. São Paulo: Perspectiva, 2004. p. 13.
Fotografias: acervo pessoal.